UNIÃO EUROPEIA SUSPENDE IMPORTAÇÃO DE CARNE BRASILEIRA POR IRREGULARIDADES SANITÁRIAS
- há 7 horas
- 3 min de leitura

A União Europeia oficializou nesta quinta-feira (3) a suspensão das importações de carne bovina, suína, de aves, além de pescados, tripas e mel provenientes do Brasil. A medida, que já havia sido anunciada em junho deste ano, entrou em vigor na data de hoje após o governo brasileiro e os produtores nacionais não conseguirem comprovar, dentro do prazo estipulado, o cumprimento integral das exigências sanitárias do bloco europeu. A decisão afeta diretamente um dos setores mais estratégicos da agropecuária brasileira, que tem na Europa um dos mercados mais exigentes e rentáveis do mundo, e coloca em risco negócios que movimentam bilhões de reais anualmente.

A suspensão foi motivada, sobretudo, pela falta de evidências documentais e laboratoriais sobre o uso de medicamentos veterinários na cadeia produtiva brasileira. A União Europeia exige que os produtores comprovem a utilização exclusiva de fármacos aprovados e o controle rigoroso de resíduos, incluindo a adoção de antimicrobianos e promotores de crescimento dentro dos limites permitidos. Segundo o comunicado oficial do bloco, o Brasil não apresentou laudos suficientes que atestem que os animais tratados com medicamentos para infecções seguem os protocolos de carência e descarte adequados, o que gerou desconfiança sobre a rastreabilidade e a segurança dos produtos exportados.

Em contrapartida, os exportadores brasileiros alegam que não há substituição imediata para o mercado europeu, mesmo com a recente ampliação da cota de importação de carne pelos Estados Unidos, anunciada na última semana. Embora o mercado norte-americano represente uma alternativa relevante, especialistas apontam que os volumes praticados pela Europa são dificilmente equiparáveis no curto prazo, além de exigirem adequações logísticas e sanitárias diferentes. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) estima que o setor poderá perder cerca de 30% de sua receita com exportações nos próximos meses, caso a suspensão se prolongue.

Guilherme França, especialista em internacionalização e sócio da consultoria de comércio internacional Intrust Associates, explica que a dificuldade de adequação não está na falta de iniciativa dos produtores, mas na complexidade da comprovação exigida pelos europeus. "O Brasil tem um sistema de vigilância sanitária reconhecido, mas a burocracia para atestar, lote a lote, o uso correto de medicamentos veterinários é extremamente detalhada e exige investimento em tecnologia e auditoria que muitos frigoríficos ainda não implementaram", afirmou o consultor. França reforçou ainda que, diante do cenário atual, o Brasil não deve retomar a comercialização para a União Europeia tão cedo, uma vez que o bloco costuma adotar medidas cautelares por prazos alongados até que todas as pendências sejam saneadas e comprovadas por missões técnicas in loco.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou, em nota oficial, que já está em contato com as autoridades europeias para agendar uma nova rodada de inspeções e apresentar um plano de ação corretiva, mas não há previsão de data para a retomada das exportações. Enquanto isso, frigoríficos brasileiros correm contra o tempo para redirecionar suas cargas para outros mercados, como China, Oriente Médio e os próprios Estados Unidos, embora os volumes praticados nessas regiões sejam inferiores aos da Europa. A suspensão, que entra em vigor em meio a um ano eleitoral e de queda nos preços internacionais das commodities, acende um alerta sobre a necessidade de modernização e rastreabilidade digital no agronegócio brasileiro, sob pena de o país perder competitividade não apenas na Europa, mas em outros mercados igualmente rigorosos, como o Japão e a Coreia do Sul.
Por: João Bosco









Comentários