A BARBÁRIE QUE ENVERGONHA A ESPÉCIE HUMANA

Inicialmente, tratava-se de mais um crime por feminicídio: o assassinato de Letícia de Morais Vasconcelos Rodrigues, estudante de medicina, de 40 anos, na cidade de Barbacena, no Campo das Vertentes, em Minas Gerais. A Polícia Civil começou as investigações, enquanto o corpo de Letícia era encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML), que comprovou que a vítima recebeu 130 facadas, distribuídas entre cabeça, pescoço, costas, orelhas, mão, nuca e abdômen. Letícia, em fevereiro deste ano, já havia registrado um boletim de ocorrência contra Gustavo Dutra Lima por ameaças e brutalidade. Ele foi preso em Bom Jardim de Minas, a 180 quilômetros de Barbacena, no Sul do estado, neste domingo (28), sendo levado ao presídio de São João del-Rei, onde permanece à disposição da Justiça. O corpo de Letícia foi sepultado nesta segunda-feira (29), no Cemitério Parque Repouso da Saudade, em Barbacena, e ela deixa dois filhos adolescentes de seu primeiro relacionamento.

O principal suspeito dessa barbárie é Gustavo Lima Dutra. Mas, seja quem for autor, como podemos classificar um ser humano com tamanha crueldade? Como podemos classificá-lo ao enxergar, de gente, uma pessoa como esta – se é que podemos chamá-lo de pessoa? A pergunta não é retórica; ela ecoa como um grito diante do abismo moral em que um indivíduo precisa mergulhar para desferir 130 golpes em uma mulher que, porventura, um dia amou. Não há diagnóstico psiquiátrico que explique, não há contexto social que atenue: o que vemos é a pura e simples escolha pelo mal, exercida com uma frieza cirúrgica que assusta mais do que a própria violência dos ferimentos.

O que pode oferecer um relacionamento entre uma mulher de 40 anos, com dois filhos adolescentes, com um jovem de 24 anos, com menos de oito anos de diferença do filho mais velho dela? Essa disparidade etária e de vivências, por si só, já carrega tensões naturais – diferenças de maturidade, de expectativas, de ciclos de vida. Contudo, nada, absolutamente nada, transforma um descompasso afetivo em licença para o extermínio. Se Gustavo sentia ciúmes, medo da rejeição ou frustração, que procurasse um divã, não uma faca. A desproporção entre o sentimento (qualquer que fosse) e a reação (130 facadas) não é um crime passional; é um atentado contra a própria condição humana.

A frieza do ato se agrava quando lembramos que Letícia já havia denunciado Gustavo por ameaças e brutalidade meses antes. Ela fez o que a lei orienta, buscou proteção, registrou o medo em um boletim de ocorrência – e ainda assim o sistema não a salvou. Mas a culpa maior não é do papel que não virou algema; é do carrasco que, sabendo-se vigiado, escolheu aperfeiçoar o terror. O autor desta barbárie, não é um coitado que "perdeu o controle"; é um homem que planejou, perseguiu, silenciou e executou, golpe por golpe, a mãe de dois adolescentes que agora crescerão com a imagem da mãe esfaqueada 130 vezes. Que coragem é preciso ter para olhar nos olhos de uma mulher e repetir o gesto de esfaquear dezenas de vezes? Não coragem, mas covardia – a pior espécie, a que ataca pelas costas e foge para outra cidade.

Diante de tamanha hediondez, a Justiça precisa ser exemplar, mas isso não devolverá Letícia nem apagará o luto de seus filhos. O que fica, além da dor, é a indigesta certeza de que há monstros que circulam entre nós com rosto de gente, que sorriem em fotos de rede social enquanto alimentam um ódio capaz de transformar um corpo em um mapa de feridas. O autor se condenado, não merece compreensão nem redenção poética – merece o peso integral da lei e o desprezo absoluto de uma sociedade que se recusa a normalizar a barbárie. Que seu nome seja lembrado não como o de um amante descontrolado, mas como o símbolo do que há de mais podre na masculinidade tóxica: a incapacidade de perder sem destruir. Que Letícia, enfim, descanse – e que sua morte não seja em vão, mas um alerta definitivo de que 130 facadas são 130 motivos para nunca mais aceitarmos o "não" como sentença de morte.
Por: João Bosco









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