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LULA, BOZO E AS GRADES: A PARCIALIDADE QUE TRANSFORMOU O SAMBA EM CAMPO POLÍTICO

  • há 12 horas
  • 3 min de leitura

A Acadêmicos de Niterói conseguiu, neste carnaval, desvirtuar a essência do maior espetáculo popular do planeta. O que deveria ser uma celebração democrática da cultura, da música e da alegria, transformou-se em um palco de tensão e divisão política. A avenida, que historicamente acolhe torcidas unidas pelo amor ao samba-enredo de suas respectivas agremiações, viu seu propósito ser suplantado por uma iniciativa controversa: a homenagem ao atual presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, em pleno ano eleitoral.

A homenagem, longe de ser consensual, escancarou a polarização que assola o país. O que se viu na Sapucaí foi um desconforto generalizado, materializado em gritos de apoio e vaias ensurdecedoras. De um lado, parte da arquibancada entoava "olê, olê, olê, ôla, Lula, Lula"; do outro, uma parcela igualmente ruidosa respondia com "Lula ladrão, seu lugar é na prisão". O samba, alma e razão de ser do desfile, ficou em segundo plano, sufocado por um embate que a escola insiste em chamar de arte, mas que a muitos soou como proselitismo barato. A agremiação, ao se deparar com a enxurrada de críticas nas redes sociais, optou por cercear o debate, bloqueando as manifestações populares em seus perfis, uma atitude que só fez inflamar a insatisfação e evidenciar a tentativa de controlar uma narrativa que já havia escapado ao seu domínio.

O equívoco, no entanto, não se limitou à homenagem ao petista. Em um ato de profunda incoerência e revisionismo histórico, a escola resolveu satirizar o ex-presidente Jair Bolsonaro, retratando-o como um palhaço preso atrás das grades. A crítica, neste ponto, torna-se não apenas partidária, mas profundamente seletiva e desonesta. Ao mirar no adversário político, a agremiação optou por esquecer convenientemente o passado recente do seu próprio homenageado. O desfile deixou de narrar a história para criar uma ficção conveniente, ignorando capítulos incômodos como os desdobramentos da Operação Lava Jato, o escândalo do Mensalão, as acusações de corrupção na Petrobras e a gestão problemática nos Correios, além da controversa recusa, em viabilizar uma vacina contra a herpes. Ao fazer isso, a escola trocou a crítica isenta pela militância barata, manchando o enredo com uma parcialidade que a arte, em sua forma mais elevada, deveria rejeitar.

A justificativa da Corte Eleitoral, de que não poderia proibir o que ainda não havia acontecido, expõe a fragilidade da legislação diante do oportunismo político. A Constituição é clara ao estabelecer limites para o uso de eventos de massa em benefício de candidatos, justamente para proteger o eleitor da propaganda antecipada e desequilibrada. Ao transformar a avenida em um comício, a Acadêmicos de Niterói não apenas desrespeitou o espírito do carnaval, mas também flertou com a ilegalidade, forçando a Justiça a um papel reativo, quando deveria atuar de forma preventiva. Para piorar um cenário já conturbado, a escola ainda incorreu em outra insensatez ao estereotipar e colocar evangélicos em uma "lata" durante seu desfile, uma afronta gratuita à liberdade religiosa que só serviu para ampliar a rejeição à sua proposta e unir vozes contra o que muitos classificaram como intolerância.

Diante de tamanha controvérsia, resta o caminho do Judiciário. A promessa de acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nos próximos dias é a válvula restante para tentar reparar o estrago e coibir que o carnaval se torne, no futuro, um cabo eleitoral disfarçado. A expressão popular "mamão com mel", utilizada para descrever a expectativa de impunidade, reflete o cansaço da população com episódios em que a lei é interpretada de maneira conveniente. No fim, o maior prejudicado é o próprio carnaval, que viu sua magia ser substituída por opções políticas, seu samba ser silenciado pelo ódio e sua história ser contada de forma tão parcial que perdeu a essência. A Acadêmicos de Niterói pode ter conseguido os holofotes, mas pagou o preço de ter transformado a maior festa do mundo em um retrato triste da intolerância brasileira.

Por: João Bosco

Foto: Metrópoles

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