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Bancos digitais sacodem o sistema financeiro


Uma conta-corrente sem precisar ir à agência, sem papelada e, principalmente, sem mensalidade pelos pacotes de serviços. Para grande parte dos brasileiros, isso ainda pode parecer algo distante, mas há cada vez mais opções no mercado. São os bancos digitais, empresas que viram na tecnologia a oportunidade para entrar no varejo bancário, um dos mais concentrados do País, e que, mesmo formigas perto dos gigantes, estão sacudindo um dos setores mais conservadores da economia.

É claro que não surgiram de uma hora para a outra. A digitalização do sistema financeiro é um processo que vem de longa data, desde o início da popularização da computação, ainda na década de 1980. Caixas eletrônicos, internet banking e aplicativos para consultas em smartphones são todos frutos do movimento.

"A digitalização total é o último passo de um processo longo, e um passo natural dentro dessa caminhada", analisa Rodolfo Olivo, professor da Fundação Instituto de Administração (FIA), de São Paulo. Em outros países com um controle menos rígido, comenta, o surgimento de instituições desse tipo foi até mais rápido do que aqui, mesmo com o sistema bancário brasileiro sendo um dos mais avançados do mundo.

A regulação, aliás, é um dos pontos-chave para a proliferação dos bancos digitais no Brasil no último ano. Em abril de 2016, o Conselho Monetário Nacional (CMN), órgão máximo do sistema financeiro, liberou a abertura de contas por meios virtuais. Até então, praticamente todos os bancos já possuíam algum tipo de serviço de movimentação on-line, mas, para iniciar o relacionamento, era obrigatório comparecer a uma agência com documentos impressos. A nova regra eliminou essa necessidade, liberando a abertura de contas com outros mecanismos, como reconhecimento facial, localização pelo GPS e checagens em bancos de dados.

Era o que as empresas precisavam para colocar em prática um modelo de bancos sem agências. A primeira iniciativa nesse sentido é até anterior à norma. O atual Banco Inter (então Intermedium) lançou o serviço ainda em 2014, mas a abertura da conta exigia o envio de documentos e reconhecimento de firma em cartório. Não decolou. Com a publicação das novas regras, porém, o banco passou a aceitar fotos dos documentos, da assinatura e selfies, e o crescimento se acelerou. Em janeiro deste ano, por exemplo, eram 98 mil correntistas - no m de agosto, já chegam aos 250 mil e, até o m de 2018, a meta é bater no milhão.

Outra iniciativa, talvez a mais conhecida delas, foi lançada na esteira da mudança nas regras. Projetado pelo atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o Banco Original se abriu para o varejo, em março de 2016, chacoalhando as estruturas pelo seu potencial de investimento. Afinal, por trás dele estavam os donos de uma das maiores empresas do Brasil, a JBS, hoje famosos por frequentarem as páginas policiais. A meta da instituição, criada a partir da aquisição do gaúcho Banco Matone pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, era chegar a 2 milhões de contas em 10 anos.

Também surgiram, logo depois, o Banco Neon, em julho de 2016, e a conta digital do gaúcho Banco Agiplan, em novembro. O primeiro, surgido de uma startup de cartões pré-pagos, já chegou aos 240 mil correntistas, e também projeta chegar nos sete dígitos até o m de 2018. Já o segundo, pioneiro na oferta desse tipo de serviço também a pessoas jurídicas, chegará a janeiro com 100 mil contas, e pretende bater a marca mágica do milhão até o ano de 2020.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) estimava, em março, que havia 940 mil contas-correntes totalmente digitais, abertas sem contato presencial entre cliente e instituição, considerando apenas Inter, Original, Itaú e Banco do Brasil. O crescimento, porém, deve ser vertiginoso. Até o m do ano, a expectativa é de chegar às 3,3 milhões.

Os números ainda mostram um alcance restrito se comparados à população brasileira, mas os negócios virtuais já despertaram a atenção dos grandes conglomerados. Assim como no caso dos cartões de crédito, em que o sucesso do Nubank motivou contra-ataques como o Digio, lançado por BB e Bradesco, as contas digitais também voltam a aparecer nos grandes bancos - o Bradesco foi ainda mais longe e, há três meses, lançou o seu próprio banco digital, batizado de Next. Em geral, porém, ainda cobram pelas cestas de serviços.


Desafio é ganhar em escala


A primeira barreira aos digitais, que era conseguir entrar no mercado, já foi vencida, mas, no mundo dos negócios, isso não é o suficiente. "No fundo, você precisa de escala. E, por mais que faça um sanduíche bom, você não é o McDonald's", ilustra o executivo da empresa de pesquisas CVA, Sandro Cimatti, que vê os ainda pequenos bancos digitais crescendo, mas dependentes de muito trabalho para que se consolidem.

Uma das principais dificuldades é simplesmente aparecer. Não à toa, na pesquisa feita pela CVA, o mais famoso dos digitais era o Original (conhecido por 46,6% dos entrevistados), também o que mais investira em divulgação. As marcas, no m das contas, são fundamentais em um segmento no qual a relação depende de confiança. Há o desafio ainda de transmitir segurança ao mesmo tempo em que se usa a modernidade como diferencial.

O Inter, por exemplo, sentiu isso na pele. Antes voltado a financiamentos e com nome mais sóbrio (Intermedium), precisou simplificar sua imagem em junho. Pode parecer algo pequeno, mas qualquer detalhe é valioso na disputa por um público bastante volátil.

"Fidelizar é muito diferente do tradicional, em que se sentava com o gerente. O custo de sair de um banco para o outro agora é muito baixo", comenta Alberto Luiz Albertin, coordenador do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV. Uma das saídas para o dilema passa pela migração das Pessoas Jurídicas, estratégia da Agiplan e agora também do Inter.

A busca por um quinhão "mais seguro" tem a ver também com o fato de serem ainda um produto de nicho. "Mesmo com o crescimento do acesso à internet, eles ainda não têm grande penetração. Além disso, sempre vai ter quem queira ir em uma agência, embora cada vez menos" analisa o professor da FIA, Rodolfo Olivo.

Como atuam:

Agiplan

  • Criação da empresa: Abril de 1999, como corresponde bancário, e agosto de 2016 como banco, após compra do Banco Gerador;

  • Lançamento da conta digital: Novembro de 2016;

  • Número de contas: Fechará o ano com 100 mil correntistas;

  • Meta: Chegar a 1 milhão de contas até 2020;

  • Taxas e tarifas: TED a outros bancos (a partir da 3ª no mês): R$ 6,90; o restante é gratuito.

  • Saques: Nas casas lotéricas.










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